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O conflito que afeta os cristãos na Nigéria tem raízes profundas

Foto do escritor: Raphaelson Steven Zilse
Raphaelson Steven Zilse
5 de jun.
4 min de leitura
Casas tradicionais em uma área rural próxima a Abuja, no centro da Nigéria. Agricultores cristãos rurais e suas igrejas continuam sendo aterrorizados pela violência, que possui uma longa história e que, mais recentemente, recebeu novos recursos e foi reacendida pelo Estado Islâmico. Foto por Miros/Adobe Stock, em christiandaily.com
Casas tradicionais em uma área rural próxima a Abuja, no centro da Nigéria. Agricultores cristãos rurais e suas igrejas continuam sendo aterrorizados pela violência, que possui uma longa história e que, mais recentemente, recebeu novos recursos e foi reacendida pelo Estado Islâmico. Foto por Miros/Adobe Stock, em christiandaily.com

Nigéria (ChristianDaily) - Nas férteis terras agrícolas do Cinturão Médio da Nigéria, mais uma aldeia é atacada durante a noite. Casas são incendiadas, igrejas reduzidas a cinzas e famílias são dispersadas ou mortas. Pela manhã, os sobreviventes recolhem o que restou e enterram seus mortos. A devastação e a dor são agravadas pela certeza de que tudo poderá acontecer novamente em breve.


Na semana passada, 29 jovens cristãos foram mortos a tiros em um campo de futebol no estado de Adamawa, onde sua igreja também foi incendiada até o chão. Na semana anterior, 26 pessoas foram sequestradas e outras 17 foram mortas em um ataque separado no estado de Benue, no norte da Nigéria, onde quatro policiais também perderam a vida.


Essas atrocidades costumam ser descritas como resultado de “conflitos comunitários” ou “disputas por recursos”. No entanto, a violência direcionada às comunidades cristãs na Nigéria não é aleatória, nem simplesmente consequência de pressões ambientais ou disputas locais.


Ela está enraizada em uma longa história que se estende desde a formação dos estados pré-coloniais, passando pelo período da administração colonial, até a economia política fragmentada da Nigéria moderna. Para compreender o sofrimento dos cristãos hoje, é necessário primeiro entender as estruturas que o tornaram possível.


Um país, duas religiões


O islamismo chegou à Nigéria antes do cristianismo. O Califado de Sokoto foi fundado por Usman dan Fodio no início do século XIX. O califado estabeleceu um sistema de governo islâmico sobre grande parte do norte da Nigéria, criando uma divisão entre os muitos povos do país que jamais foi totalmente superada e que tem sido constantemente explorada por grupos radicais.


Esse sistema de governo não desapareceu com a chegada do domínio colonial britânico. Pelo contrário, foi preservado e, em alguns aspectos, explorado por meio da política de governo indireto.


Os administradores britânicos governavam as vastas regiões do norte da Nigéria por intermédio dos emirados muçulmanos já existentes, pois não possuíam recursos suficientes para limitar as instituições islâmicas estabelecidas. A atividade missionária cristã foi restringida no norte, em contraste marcante com o sul, onde floresceu.


O resultado foi um Estado colonial dividido: um norte predominantemente muçulmano, com estruturas legais islâmicas profundamente enraizadas, e um sul majoritariamente cristão, moldado pela pelas normas administrativas britânicas.


Quando a Nigéria conquistou a independência em 1960, essas desigualdades não foram resolvidas. Elas foram incorporadas a uma estrutura nacional frágil, que lutava para conciliar identidades e instituições concorrentes.


Com o passar do tempo, a filiação religiosa tornou-se cada vez mais politizada, especialmente no norte, onde a identidade islâmica permaneceu intimamente ligada à legitimidade política e onde a educação era fortemente limitada.


O retorno ao governo civil em 1999 marcou um ponto de virada. A partir do estado de Zamfara, uma onda de estados do norte adotou interpretações ampliadas da lei islâmica (Sharia), estendendo sua aplicação além das questões de status pessoal para o direito criminal.


Embora os defensores dessa mudança argumentassem que ela refletia a vontade democrática da população, sua implementação levantou profundas preocupações para as minorias religiosas. Na prática, os sistemas da Sharia frequentemente passaram a operar paralelamente aos tribunais seculares, criando regimes jurídicos paralelos nos quais os cristãos podiam se encontrar marginalizados ou vulneráveis.


Foi nesse ambiente que surgiu o grupo Boko Haram, no início dos anos 2000. Inicialmente um movimento islamista marginal que rejeitava a educação ocidental e a autoridade do Estado, ele evoluiu para uma das insurgências mais violentas do mundo.


Sob a liderança de Abubakar Shekau, o Boko Haram passou a atacar explicitamente comunidades cristãs, apresentando sua campanha em termos religiosos. Igrejas foram bombardeadas, líderes cristãos assassinados e cidades inteiras tomadas pelo grupo. Posteriormente, o movimento se fragmentou, dando origem ao Estado Islâmico da Província da África Ocidental (ISWAP), outro dos grupos mais mortais da história do país.


Violência dos pastores nômades


No Cinturão Médio da Nigéria, onde os estados do norte de maioria muçulmana encontram os estados do sul predominantemente cristãos, outra forma de violência tem se intensificado: os ataques realizados por grupos armados frequentemente descritos como “pastores fulani” [que na realidade são extremistas, e não apenas do grupo étnico fulani ou muçulmanos mais tradicionais].


Esses conflitos costumam ser reduzidos a disputas por terras e rotas de pastagem. Mudanças climáticas, pobreza, desertificação e crescimento populacional aumentaram a competição por recursos, empurrando grupos pastoris para o sul.


A militarização desses grupos levou à realização de ataques planejados e coordenados contra aldeias. Igrejas são frequentemente alvo específico, e o momento dos ataques — algumas vezes durante festividades religiosas — reforça a percepção das vítimas de que estão sendo atacadas não apenas como agricultores, mas também como cristãs.


Dados de organizações de monitoramento de conflitos, como a ACLED, indicam que dezenas de milhares de mortes recentes estão ligadas tanto à insurgência quanto aos conflitos comunitários. Segundo as Nações Unidas e a Organização Internacional para as Migrações, milhões de nigerianos foram forçados a abandonar suas casas, muitos deles provenientes de áreas predominantemente cristãs do norte e do Cinturão Médio.


Apesar da magnitude da crise, a resposta das autoridades nigerianas tem sido desigual. As forças de segurança frequentemente estão sobrecarregadas e, em alguns casos, são acusadas pelas comunidades locais de chegarem tarde demais ou de não intervirem de forma eficaz.


Os processos judiciais relacionados à violência em massa continuam raros, reforçando um ciclo de impunidade e perda de confiança. Muitos políticos dos Estados Unidos acusam o governo nigeriano de ser cúmplice dessa situação.


Responsabilização internacional


Em vários estados do norte da Nigéria, as leis de blasfêmia baseadas na Sharia têm sido aplicadas com crescente severidade. Casos de grande repercussão atraíram atenção internacional, inclusive da Comissão dos Estados Unidos para a Liberdade Religiosa Internacional.


Para os cristãos que vivem nessas regiões, os limites do que pode ser dito ou expressado muitas vezes são incertos, e as consequências de ultrapassá-los podem ser severas.

A tragédia da Nigéria não está apenas na violência em si, mas também na forma como ela é compreendida. Quando os ataques são apresentados como consequências inevitáveis da pobreza ou das mudanças climáticas, as escolhas políticas que os sustentam acabam sendo ocultadas. Quando são descritos como antigos conflitos tribais, as instituições modernas que falham em preveni-los escapam do escrutínio público.


Por Azeem Ibrahim, em Christian Daily International.

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Hebreus 11:1

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