Cristãos se unem ao governo da Nigéria na tentativa de reabilitar/desradicalizar ex-terroristas

Nigéria (ChristianityToday) - Enquanto o governo da Nigéria enfrenta críticas por seus programas de reabilitação de ex-integrantes de grupos extremistas, líderes cristãos têm desenvolvido iniciativas próprias de discipulado, formação profissional e acompanhamento espiritual para pessoas que abandonaram organizações terroristas.
Apesar dos riscos constantes e da desconfiança tanto de grupos islâmicos quanto de parte das igrejas, esses ministérios afirmam que a transformação verdadeira só pode ocorrer por meio do Evangelho.
Da perseguição ao ministério da reconciliação
Ainda adolescente, Alhassan experimentou a violência motivada pelo extremismo religioso. Em um internato no estado de Sokoto, no noroeste da Nigéria, ele e outros estudantes cristãos foram acordados durante a noite por colegas muçulmanos, obrigados a rastejar de joelhos pelos corredores da escola enquanto eram espancados com varas.
"Eles nos chamavam de infiéis", relembra. "O mais fácil seria odiá-los. Mas eu continuei amando aqueles rapazes."
Criado em uma família cristã da etnia Zuru, Alhassan havia crescido jogando futebol com jovens haussás e fulanis. A convivência parecia pacífica até que percebeu como alguns colegas haviam sido radicalizados.
O desafio da desradicalização
A Nigéria continua enfrentando uma das maiores crises de terrorismo do mundo. Segundo o Índice Global de Terrorismo de 2026, o país ocupa a quarta posição entre os mais afetados, registrando um aumento superior a 45% nas mortes provocadas por atentados durante o último ano. Cerca de 80% dessas mortes foram atribuídas ao Estado Islâmico da Província da África Ocidental (ISWAP) e ao Boko Haram.
Diante desse cenário, o governo lançou a Operação Safe Corridor, programa voltado ao desarmamento, desradicalização, reabilitação e reintegração de terroristas arrependidos.
Em junho, o governo do estado de Borno concedeu anistia a 720 ex-integrantes do Boko Haram, além de reintegrar quase mil esposas e cerca de dois mil filhos após um programa de três meses.
A iniciativa, porém, provocou forte reação pública. Muitos sobreviventes dos ataques questionam se é possível comprovar o verdadeiro arrependimento dos terroristas, enquanto parlamentares defendem o encerramento do programa.
Em julho, o Senado nigeriano aprovou uma resolução pedindo sua extinção. Um dos senadores declarou que pessoas responsáveis por massacres, sequestros e assassinatos "não merecem reabilitação".
O papel da Igreja
Apesar das críticas ao programa estatal, Alhassan acredita que a Igreja precisa participar da solução.
"O governo deve encontrar maneiras de acabar com o terrorismo, mas a Igreja precisa lembrar que Cristo realmente pode transformar corações", afirma.
O pastor James Wuye, cofundador do Centro Inter-religioso de Mediação, também trabalha na construção da paz entre cristãos e muçulmanos e integra o comitê de desradicalização do estado de Kaduna.
Segundo ele, alguns cristãos desejam responder à violência com violência.
"Os cristãos não devem agir dessa forma. A autodefesa é um direito garantido, mas não podemos deixar de ser defensores para nos tornarmos agressores."
Para Wuye, programas baseados apenas em métodos psicológicos ou sociais produzem resultados limitados.
"O que realmente funciona é fundamentar esses programas nas Escrituras."
A conversão de um ex-radical
O missionário Ismail Almasih conhece esse processo por experiência própria.
Criado como muçulmano, ele sonhava em tornar-se um jihadista. Lia biografias de Osama bin Laden, do líder islâmico Usman dan Fodio e de Bilal ibn Rabah, acreditando que poderia servir à causa islâmica por meio da educação.
Em uma ocasião, após perder um debate sobre Jesus e Maomé para um colega cristão, espancou violentamente o estudante.
Anos depois, após fracassar nos estudos, envolver-se com drogas e ser abandonado por familiares, encontrou ajuda justamente entre cristãos. Missionários lhe ofereceram abrigo, alimento e roupas quando ninguém mais o acolheu.
Posteriormente, entregou sua vida a Cristo.
Hoje, servindo na Calvary Ministries CAPRO, Almasih visita regiões dominadas por grupos armados, distribui Bíblias em áudio e apresenta filmes bíblicos a antigos terroristas.
"Sempre procuramos anunciar o Evangelho. Foi isso que me salvou, e é isso que também pode salvá-los."
Um centro para ex-terroristas
Após encerrar sua carreira como jogador profissional de futebol devido a lesões, Alhassan dedicou-se integralmente ao ministério.
Desde 2017, ele dirige, na cidade de Jos, um programa de um ano destinado à recuperação de ex-terroristas, mantido pela Evangelical Church Winning All (ECWA).
O centro recebe cerca de 25 residentes por vez. Eles estudam crescimento espiritual, formação cristã, cristologia e apologética, além de receberem treinamento profissional em costura, fabricação de sabão, panificação e produção de cosméticos.
Segundo Alhassan, muitos ingressaram no terrorismo buscando escapar da pobreza.
"O extremismo parece uma saída para eles, mas apenas os leva a problemas ainda maiores."
Trabalho cercado por riscos
O ministério convive constantemente com ameaças.
Alguns participantes demonstram arrependimento sincero; outros entram no programa como espiões.
Em 2022, agentes da segurança do Estado invadiram o centro após denúncias de conversões forçadas. Depois de um dia inteiro de interrogatórios, as acusações foram consideradas infundadas.
Em outro episódio, um homem acolhido pelo programa revelou fazer parte de um plano coordenado para atacar o centro.
Por causa desses incidentes, atualmente apenas candidatos recomendados por pastores ou igrejas são aceitos.
O desafio da aceitação
Apesar das dificuldades, muitos participantes concluem o programa, são batizados, ingressam em seminários e chegam a tornar-se pastores.
Entretanto, Alhassan lamenta que algumas igrejas continuem desconfiando dos próprios convertidos que enviaram para serem discipulados.
"Nós, cristãos, muitas vezes não os vemos como parte da família da fé, mas como um problema do qual devemos manter distância."
Para ele, a verdadeira vitória sobre o extremismo não acontece apenas quando alguém abandona as armas, mas quando encontra uma nova identidade em Cristo e é acolhido pela comunidade cristã.
Por Emmanuel Nwachukwu, em Christianity Today.




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