Ameaças dos Houthis do Iêmen e um vislumbre da Igreja local

Iêmen (MNN) — O grupo político e militante baseado no Iêmen conhecido como Houthis lançou mísseis contra a Arábia Saudita no dia 13 de julho, rompendo uma trégua informal que vinha sendo mantida havia quatro anos.
Os Houthis acusaram a Arábia Saudita de bombardear o aeroporto de Sanaa, que está sob controle do grupo. O governo iemenita, exilado e com pouco poder efetivo, assumiu a responsabilidade pelo ataque em Sanaa, mas os Houthis continuam apontando publicamente a Arábia Saudita como responsável. (Mais abaixo explicamos o motivo.)
Também permanecem as preocupações de que o grupo apoiado pelo Irã volte a intensificar ataques contra a rota marítima do Mar Vermelho, como uma extensão do conflito entre Estados Unidos e Irã. Os Houthis, também conhecidos como Ansarallah, foram novamente designados pelos Estados Unidos, em 2025, como uma Organização Terrorista Estrangeira.
Trey Hulsey, consultor que trabalha com organizações sem fins lucrativos e ONGs no Oriente Médio, afirma que, embora seja difícil prever os próximos acontecimentos, é do interesse dos Houthis manter a ameaça de ataques em aberto, em vez de realmente fechar a importante rota comercial do Mar Vermelho.
"As empresas de transporte marítimo têm maior probabilidade de pagar pela passagem segura de seus navios enquanto acreditarem que existe uma possibilidade real de serem atingidos", explica Hulsey. "Acredito que os Houthis continuarão demonstrando que podem atacar embarcações que utilizam o Mar Vermelho, mas não o farão com frequência, porque preferem obter concessões financeiras a afundar navios."
As complexas relações em torno do conflito
Para compreender os ataques com mísseis entre Houthis e Arábia Saudita ocorridos na última semana, é necessário observar as complexas relações políticas que cercam o Iêmen.
O país está mergulhado em uma guerra civil há mais de uma década, e seu destino é fortemente influenciado por outras nações.
A Arábia Saudita faz fronteira ao norte com o Iêmen e possui grande interesse estratégico na região, especialmente porque os Houthis controlam grande parte do noroeste do país.
Hulsey lembra que, no final de 2025, a Arábia Saudita rompeu relações com o grupo separatista conhecido como Conselho de Transição do Sul (STC), responsável pela administração de parte do sul do Iêmen.
"Desde então, o STC está significativamente mais fraco do que antes, porque o apoio da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos era fundamental em termos de recursos, financiamento e conhecimento técnico", explica Hulsey. "Então a Arábia Saudita decidiu: 'Vamos trabalhar diretamente com os Houthis e tentar chegar a algum entendimento'."
Esse entendimento, entretanto, não tem sido simples.
Segundo Hulsey, sauditas e Houthis possuem interesses conflitantes.
"Esse rompimento do cessar-fogo é menos um marco importante e mais um sintoma de uma relação que já vinha deteriorada há bastante tempo."
O cenário religioso, o cansaço da guerra e o crescimento da Igreja
A pequena comunidade cristã do Iêmen vive em um ambiente extremamente difícil sob os aspectos geopolítico, econômico e religioso.
No plano geopolítico, Hulsey explica que a Arábia Saudita é considerada a principal liderança entre os muçulmanos sunitas do Oriente Médio. Emirados Árabes Unidos e Catar também fazem parte desse bloco.
Já o Irã exerce liderança sobre boa parte do mundo xiita, presente em regiões do Iraque, Síria, Líbano e Iêmen.
"Muitas vezes isso é chamado de 'arco xiita', porque forma uma espécie de arco no mapa."
A população iemenita é estimada em aproximadamente 65% de muçulmanos sunitas e 35% de muçulmanos xiitas. Os Houthis pertencem ao ramo zaidita do islamismo xiita.
Uma das maiores crises humanitárias do mundo
Economicamente, o Iêmen continua sendo um dos países mais pobres do planeta.
Segundo a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), mais de 80% da população vive abaixo da linha da pobreza.
Hulsey explica que a população consegue sobreviver apenas graças à ajuda internacional.
"As pessoas sobrevivem, mas isso depende significativamente da ajuda de grandes programas governamentais, grandes ONGs internacionais e também muitas organizações menores autorizadas a atuar no país."
Ele afirma que o cidadão comum está simplesmente cansado da guerra.
"Pode parecer uma resposta simplista, mas também é verdadeira. O iemenita médio está exausto de todo esse caos constante e ficaria muito feliz se tudo se estabilizasse e as pessoas simplesmente pudessem voltar à vida normal."
Cristãos enfrentam perseguição constante
A pequena comunidade cristã do Iêmen sofre não apenas com as consequências econômicas da guerra civil.
Além disso, enfrenta oposição do governo, das famílias e da própria sociedade por causa da fé em Cristo.
"Eles sacrificam muito mais do que a maioria de nós imagina para seguir Jesus", afirma Hulsey.
Segundo ele, desde o final de outubro e início de novembro de 2025, cerca de 50 cristãos iemenitas foram presos pelo governo Houthi simplesmente por serem seguidores de Jesus.
Além disso, qualquer pessoa pode denunciar um cristão às autoridades.
"Qualquer um pode aumentar a pressão sobre você se decidir denunciá-lo à polícia ou às forças de segurança dizendo: 'Achamos que essa pessoa é cristã. Alguém deveria investigar isso'."
A Igreja continua crescendo
Apesar da perseguição, Hulsey afirma que a Igreja no Iêmen alcançou uma massa crítica, tornando-se suficientemente grande para continuar crescendo de forma consistente.
Esse crescimento acontece justamente quando outras pessoas observam cristãos suportando o sofrimento sem abandonar sua fé.
Ele compartilha a história de uma cristã iemenita chamada ficticiamente de "Latifa".
Após converter-se a Cristo, sua vizinha a denunciou às autoridades, o que resultou em sua prisão.
No entanto, durante esse processo algo extraordinário aconteceu.
"Latifa levou justamente essa mulher que a denunciou a entregar sua vida a Cristo", conta Hulsey. "E isso não é incomum nesses países onde a perseguição é tão concreta."
Ele acrescenta:
"Nós, no Ocidente, falamos sobre tomar a cruz, sobre o custo do discipulado e de seguir Jesus. Sim, existe um preço. Mas em lugares onde a perseguição é tão intensa e a hostilidade ao Evangelho é tão aberta, esse custo se torna visível. Não é preciso viver essa realidade para perceber quanto custa a alguém confessar Cristo como Senhor."
Hulsey sugere que os cristãos ao redor do mundo orem:
Para que a Igreja iemenita continue crescendo, amadurecendo e permanecendo saudável espiritualmente.
Em vez de pedir apenas proteção física, que Deus conceda graça, coragem e perseverança para suportar tudo aquilo que Ele permitir.
Para que a Igreja continue se multiplicando e muitos corações sejam transformados pelo Evangelho.
Para que Deus abra os olhos espirituais daqueles que ainda não conhecem Cristo.
Para que os cristãos iemenitas saibam que fazem parte da Igreja de Cristo espalhada pelo mundo e não estão esquecidos, apesar do isolamento em que vivem.
Como conclui Hulsey:
"Que eles saibam que a Igreja ao redor do mundo conhece sua existência, os ama e deseja o seu bem, assim como desejamos o bem de todos os seguidores de Jesus."
Por Katie O'Malley, em Mission Network News.




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